quinta-feira, 11 de junho de 2015

Breve biografia de Padmasambhava


Padmasambhava

Numa ilha no oceano de leite, crescia uma flor de lótus multicolorida, sobre a qual estava sentado um menininho de apenas oito anos, muito belo, ornamentado com todas as marcas maiores e menores, segurando um vajra e um lótus em suas mãos. Ao vê-lo, o rei Indrabodhi ficou maravilhado e perguntou:
Pequeno menino, quem é seu pai e quem é sua mãe? Qual é a sua casta e qual é o seu país? De que comida você vive e qual é o seu objectivo aqui?
Em resposta a estas perguntas, o menino respondeu:
Meu pai é a sabedoria do estado desperto espontâneo. Minha mãe é a senhora sempre excelente, o espaço de todas as coisas. Pertenço à casta do espaço e estado desperto indivisíveis. Tomei o dharmadhatu não-nascido como minha terra natal. Sustento-me consumindo os conceitos de dualidade. Meu objetivo é o ato de eliminar as emoções perturbadoras.
Certamente, o mais influente dos mestres Nyingma foi Padmasambhava (tib. Pemajungne / Pad ma 'byung gnas), conhecido pelos tibetanos como Guru Rinpoche, que provavelmente viveu durante o século VIII. Ele recebeu a transmissão de ensinamentos de Jampel She Nyen (sânsc. Manjushrimitra, tib. 'Jam dpal bShes gNyen) e Garab Dorje (sânsc. Prahevajra?, Surativajra?, tib. dGa' rab rDo rje), e seu trabalho missionário difundiu esta linhagem no Tibet. A tradição diz que ele foi uma emanação do Buddha Amitabha (tib. Öpagme / 'Od dpag med) cuja meta específica era a de facilitar a disseminação do buddhismo naquele período crucial.
De acordo com a biografia escrita por sua discípula e consorte Yeshe Tsogyal (tib. Ye shes mTsho rgyal), muitos eventos do começo da vida de Padmasambhava têm vários paralelos aos da vida do Buddha Shakyamuni. Como Shakyamuni, ele teve um nascimento milagroso em um pequeno reino no norte da Índia. As lendas populares afirmam que ele nasceu no país de Oddiyana (tib. Orgyen / O rgyan) alguns após depois do parinirvana de Shakyamuni. Sobre um grande lótus multicolorido que surgiu no meio de um lago, havia um vajra dourado, marcado com uma sílaba-semente Hrih que tinha sido emanada do coração de Amitabha. No momento de seu nascimento, ele já tinha o desenvolvimento físico de uma criança de oito anos e todas as marcas maiores e menores de uma "grande pessoa". Quando o lótus abriu, Padmasambhava estava de pé em seu centro, segurando um vajra e um lótus em suas mãos. Por causa da natureza de seu nascimento, ele seria chamado de Padmasambhava, que significa Nascido do Lótus. (Segundo uma outra versão, para aqueles que não tinham o karma para reconhecer este nascimento milagroso, Padmasambhava teria mostrado simultaneamente um nascimento comum, como o filho do rei Mahusita de Oddiyana; ele então teria recebido o o nomeDanarakshita.)
Indrabodhi (tib. Gyelporaadza / rGyal por rá dza), o rei de Oddiyana, não tinha filhos e então decidiu adotar Padmasambhava. Ele o encontrou quando estava retornando da ilha de jóias preciosas da filha do rei naga. Indrabodhi tinha ido até lá para solicitar a jóia que realiza desejos, pois tinha gasto toda a sua riqueza de seus cento e oito tesouros dando esmolas aos mendigos.
Assim como Shakyamuni, Padmasambhava viveu em um palácio, aprendeu as artes e ciências apropriadas aos príncipes e se casou com uma bela mulher, Khadro Öchangma. Seu pai adotivo queria que ele seguisse seus passos e governasse o reino, mas Padmasambhava percebeu que aquela vida seria de pouco benefício aos outros, particularmente em comparação com o grande benefício que poderia realizar através da divulgação do Dharma.
Ele pediu ao seu pai a permissão para deixar o palácio e seguir uma vida religiosa, mas o rei recusou. Para convencer Indrabodhi a deixá-lo ir, Padmasambhava fez uma dança, durante a qual ele se atrapalhou com um tridente khatvanga e acabou matando o filho de Kamalate, o mais influente dos ministros. Isto é referido como uma "liberação" ao invés de um assassinato, pois o filho do malévolo ministro morreria em breve por causa do grande karma negativo que acumulou em vidas passadas. Sabendo disso, Padmasambhava foi capaz de efetuar a liberação do menino através de seu poder yógico. Porém, isto não foi reconhecido pelo rei nem pelos ministros, e como Padmasambhava pretendia, foi exilado do reino e ordenado a viver em cemitérios. Após uma emocionante despedida, Padmasambhava partiu.
Apesar de isto parecer uma punição dura e opressiva para um aparente acidente, isto satisfez os objetivos de Padmasambhava, pois os crematórios eram os pontos de meditação favoritos dos adeptos (sânsc. siddha, tib.drubthob / grub thob) tântricos. Durante o seu exílio, ele passou seu tempo nos crematórios de Shitavana, Nandanavana e Sosadvipa; em cada um destes lugares ele desenvolveu seu insight e poder tântricos, e recebeu ensinamentos e iniciações de dakinis (tib. mkha' 'gro ma / khandroma), tornando-se um poderoso yogi.
Ele então viajou à ilha de Dhanakosha e à floresta de Parashakavana, onde continuou a encontrar dakinis e a intensificar seu insight e seu poder. Depois ele foi a Vajrasana (o lugar da iluminação de Buddha) e então para o país de Zahor, onde encontrou o grande mestre Prabhahasti (Shakyabodhi), de quem recebeu ordenação monástica e o nome Shakya Senge. Ele aprendeu o Vinaya com Ananda, discípulo do Buddha Shakyamuni.
Apesar de todos tópicos do conhecimento estarem espontaneamente presentes dentro de sua mente, Padmasambhava estudou idiomas, medicina, lógica, artesanato e outras ciências, a fim de inspirar confiança nos seguidores comuns. Ele também estudou toda a gama de literatura e ciência buddhistas, tornando-se mestre dos textos das tradições exotérica e esotérica e sendo amplamente reconhecido por sua proeza espiritual.
Da monja Küngamo, uma dakini, ele recebeu a iniciação externa de Amitabha, a interna de Avalokiteshvara e a secreta de Hayagriva. Nesta ocasião, a monja deu a ele o nome Loden Chogse. Em seguida, ele recebeu ensinamentos de Manjushrimitra, Humkara, Prabhahasti, Nagarjuna, Buddhaguhya, Mahavajra, Dhanasankrita, Rombuguhya Devachandra, Shantigarbha e Shri Simha. Assim, ele se tornou mestre dos ensinamentos dasOito Classes de Atingimento (tib. Drubdegye / sGrub sde brgyad), da Rede Mágica (tib. Gyunp'hül Drowa / sGyu 'phul drwa ba) e da Grande Perfeição (sânsc. Atiyoga, tib. Dzogchen / rDzogs chen). Neste ponto de seu desenvolvimento, ele era capaz de instantaneamente compreender e memorizar quaisquer ensinamentos e textos, mesmo após ouvi-los apenas uma vez. Ele poderia perceber quaisquer divindades sem nem mesmo propiciá-las.
Por muitos meses ele realizou ritos tântricos avançados na caverna Maratika junto com sua consorte, a princesa Mandarava (tib. Mandá ra bá), filha do rei Arshadhara de Zahor. Ele cultivou práticas de longevidade e recebeu a iniciação diretamente de Amitayus (tib. Ts'hepagme / Tshe dpag med), o buddha da longa vida. Através desta prática, ele atingiu o nível de um detentor de conhecimento e ganhou o completo controle sobre a duração de sua própria vida.
Já que, através destas práticas, sua forma física era capaz de transcender o nascimento e a morte, ele se tornou efetivamente imortal e nada podia feri-lo sem que ele deixasse. Isto provou ser um atingimento valioso, pois quando ele viajou ao reino de Zahor, o rei e os ministros tentaram imolá-lo. 
Através de seu poder tântrico, ele foi capaz de transformar a pira em um lago de óleo de gergelim e permaneceu ileso em seu centro, sentado em um lótus. O rei e os ministros ficaram tão impressionados que pediram para ele ensinar o Dharma. Foi então que ele recebeu os nomes Padmasambhava Padmakara (Pemajungne em tibetano), Nascido do Lótus.
Depois, ele viajou a Oddiyana como um mendigo, mas seus habitantes o reconheceram como o príncipe banido, e o ministro cujo filho foi morto tentou queimá-lo com sua consorte Mandarava em uma pira de sândalo. Padmasambhava transformou a pira e apareceu com sua consorte às pessoas que estavam por perto, sobre um lótus no meio de um lago, completamente ileso pelo fogo. Esta exibição impressionou tanto o rei do Oddiyana que ele pediu que Padmasambhava se tornasse seu mestre.
Padmasambhava estava usando um colar de crânios, simbolizando que era um mestre tântrico que libera os seres sencientes da existência cíclica; por isso foi chamado de Pema Thötreng Tsal,  Lótus Poderoso da Guirlanda de Crânios. E como ele tinha sido anteriormente o filho adotivo do rei, passou a ser chamado também de Pema GyalpoRei do Lótus
Ele serviu como mestre em Oddiyana por 13 anos, durante os quais converteu todo o reino ao Dharma. Ele também disseminou o Dharma aos países vizinhos, e se diz que ele emanou o monge Indrasena, que converteu o rei Ashoka. Além disso, ele inspirou as pessoas a construir monumentos físicos ao Dharma, tais como stupas (tib. chöten / chos rten), que tanto divulgavam a fama dos ensinamentos quanto marcavam o seu avanço. As histórias tradicionais de sua vida contam inúmeros atos corajosos que ele realizou para banir a oposição e converter os inimigos ao Dharma. Em cada caso, mentes cheias de ódio e rancor foram transformadas em mentes elevadas pela fé no Buddha e em seus ensinamentos.
No cemitério de Jalandhara, Padmasambhava ajudou a vencer um debate contra os hereges que cercavam Vajrasana. Os panditas então deram a ele o nome Senge DradrogLeão que Ruge. Na caverna Yangleshö (hoje Parp'hing, Nepal), ele atingiu a realização das práticas de Vajraheruka e Vajrakilaya, tendo a princesa nepalesa Shakyadevi como sua consorte.
Padmasambhava começou a ampliar o escopo de sua atividade missionária, visitando a China, Shangshung e o Turquestão, e eventualmente decidiu que era o tempo propício para introduzir o Dharma no Tibet. As histórias tradicionais retratam sua viagem ao Tibet como uma vitória triunfante sobre as forças demoníacas que estavam determinadas a manter o buddhismo fora do país. Elas contam que Shantarakshita, o primeiro grande missionário no Tibet, encontrou uma oposição demoníaca que voltou as mentes dos ministros do rei contra ele. Os demônios do Tibet, que eram parciais à tradição pré-buddhista do Bön, jogaram relâmpagos do monte Marpori (o lugar onde atualmente está o palácio Potala) e destruíram a colheita. Shantarakshita aconselhou o rei a convidar Padmasambhava para vir subjugar os demônios do Tibet, e nesse ínterim ele foi para o Nepal. O rei seguiu as instruções de Shantarakshita e enviou uma delegação a Padmasambhava, mas o grande yogi tântrico já sabia da situação. Ele viajou à fronteira tibetana, mas seu avanço foi bloqueado por uma forte nevasca, enviada pelos demônios tibetanos para impedi-lo. A neve fez com as passagens ao Tibet ficassem inacessíveis, mas Padmasambhava superou os demônios, retirando-se em uma caverna e entrando em uma contemplação meditativa que lhe permitiu subjugá-los e colocá-los sob sua vontade. Depois disto, viajou a pé por toda a extensão do Tibet, meditando em cavernas por todo o país, desafiando os demônios que encontrava para um combate pessoal e os convertendo ao buddhismo. Nenhum foi capaz de se opor ao seu poder, e muitos se tornaram poderosos protetores da nova religião. Eles tomaram os votos solenes e eternos de nunca trabalhar contra o Dharma, de de fazer o máximo para garantir a sua propagação.
O rei, seus ministros e as pessoas comuns ficaram impressionados com o fato de um único homem desafiar todos os demônios do seu país a um combate mortal, e que nenhum tinha poder para o impedir. O rei anunciou que deste ponto em diante o buddhismo seria a religião do Tibet e perguntou a Padmasambhava o que precisaria fazer para facilitar a disseminação do Dharma. Padmasambhava aconselhou-o a convidar Shantarakshita a retornar, o que ele fez, e depois disto o primeiro monastério buddhista tibetano foi construído, em Samye (tib. Sam yas). O rei percebeu que, para que o buddhismo fosse transplantado ao Tibet com sucesso, as escrituras teriam que ser traduzidas, e assim ele fundou equipes de tradução, que começaram o longo processo de verter os textos do buddhismo indiano à língua tibetana. Além disso, ele começou a enviar tibetanos para estudar na Índia e a convidar renomados mestres indianos a visitar o Tibet.
Padmasambhava deu ensinamentos e transmissões do Vajrayana a centenas de discípulos, incluindo seus "vinte e cinco discípulos, o rei e os súditos". Com a consorte Yeshe Tsogyal, ele viajou milagrosamente por todo o Tibet, fazendo práticas, realizado milagres, dando ensinamentos e abençoando centenas de cavernas, montanhas, lagos, e templos como lugares sagrados. Ele escondeu milhares de tesouros (tib. terma / gter ma) em muitos lugares para beneficiar os seguidores futuros. Centenas de tibetanos que receberam ensinamentos dele tornaram-se seres realizados.
As histórias tibetanas não concordam sobre quanto tempo Padmasambhava permaneceu no Tibet para assegurar a difusão do Dharma com sucesso. De acordo com alguns registros, ele permaneceu apenas 6 ou 18 meses, enquanto outros argumentam que ele permaneceu por 3, 6 ou 12 anos. Alguns afirmam que ele permaneceu por mais de 50 anos. De acordo com a Declaração de Ba (tib. Bashe / Ba bzhed), a discrepância pode ser explicada: Padmasambhava pareceu deixar o Tibet após algum tempo, mas na realidade o Padmasambhava que deixou o país era apenas uma emanação criada pelo mestre, que continuava em cavernas solitárias. Em uma análise final, isso provavelmente importa pouco do ponto de vista da tradição, já que ela atribui a Padmasambhava inúmeros feitos surpreendentes. Se estes foram realizados em um curto período de tempo, isto é um testemunho de seu grande poder, e se eles foram realizados em um longo período, isso indica a sua grande compaixão e habilidade em supervisionar a transmissão do Dharma.
Ele eventualmente deixou o Tibet para continuar seu trabalho missionário nas regiões vizinhas, domando demônios e forças opostas ao buddhismo. Imediatamente depois de deixar o Tibet, ele viajou à montanha Küngtang (tib. Gung thang), onde subjugou Tötreng (tib. Thod phreng), rei dos ogres. Durante sua luta, Padmasambhava "liberou" Tötreng e, depois disso, entrou em seu corpo. Padmasambhava então criou um palácio, que se tornou a base de seu poder entre os ogres. Padmasambhava continua a viver neste mundo e a se engajar na atividade missionária, pelo benefício de todos os seres sencientes. Ele é o regente de Vajradhara, cuja presença assegura que a verdadeira essência do Dharma sempre permanecerá no mundo.

(Adaptado do livro Introduction to Tibetan Buddhism,
John Powers, Snow Lion Publications,

The Lotus-Born: the Life Story of Padmasambhava,
Yeshe Tsogyal, Shambhala Dragon Editions

The Hidden Teachings of Tibet,
Tulku Thondub Rinpoche, Wisdom Publications)


sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

A Lenda da Grande Stupa


A Lenda da Grande Stupa - Padmasambhava e Yeshe Tsogyal
Prósperos em virtude de seu trabalho diligente, a vendedora de aves Shamvara e seus quatro filhos aspiraram construir uma Grande Stupa - um relicário para os restos dos Tathagatas e um local de adoração para inúmeros seres.

Esta lenda de devoção, contada pelo grande Guru Padmasambhava ao Rei do Tibete, Trison Detsen, usa a linguagem do mito para comunicar significados profundos.

Dos ciclos de construção, progresso, destruição e regeneração que a lenda relata, ecoam experiências inerentes ao desenvolvimento espiritual, oferecendo um guia visionário através dos estágios da iluminação.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Prece de Sete Linhas

Hung

No país de Orgyen, em sua fronteira noroeste,
Sobre um lótus, pistilo e caule,
Espantosa e suprema realização você alcançou
E como o Nascido do Lótus você é renomado.
Um círculo de muitas dakinis o envolve,
Seguindo suas pegadas, praticando, nós o seguimos.
Para que conceda suas bençãos, aproxime-se, nós oramos

Guru Padma Siddhi Hung

Lótus branco






O comentário traduzido nestas páginas é incomum e raro. Mas, se o comentário é uma raridade, seu tema, a invocação em sete linhas a Guru Padmasambhava, é uma das preces mais conhecidas no mundo do budismo tibetano. O significado geral da Prece de Sete Linhas talvez seja melhor entendido em relação a prática chamada guru yoga, ou "união com a natureza do guru." O propósito de guru yoga é purificar e aprofundar a relação do discípulo com seu/sua professor(a). É introduzida como uma das práticas preliminares e permanece como crucial - de fato sua importância aumenta - à medida que se progride para os níveis mais avançados do caminho tântrico. O cultivo da devoção pelo(a) guru e a união da mente com a mente iluminada é, nas palavras de Dilgo Khyentse Rinpoche, "a mais vital e necessária de todas as práticas e é, em si mesma, a forma mais segura e rápida de alcançar a meta da iluminação." No que diz respeito a origem deste comentário, Mipham se refere no colofão a um evento que disparou o surgimento abrupto em sua mente do significado oculto da prece. Interessante notar que a linguagem que Mipham emprega sugere que o próprio comentário não é uma composição ordinária, mas o ensinamento de um tesouro, especificamente um "tesouro da mente", ou gongter.


sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Ensinamentos do mestre que nasceu do lótus

Livro: Ensinamentos do mestre que nasceu do lótus



Padmasambava é o mestre fundamental do Vajrayana, que são os ensinamentos para a nossa época. Por grande compaixão e sabedoria, instruiu a sua discípula principal, Yeshe Tsogyal, que escondesse tesouros a serem revelados em épocas predeterminadas para praticantes futuros.
A profundidade dessas instruções é para ser aplicada individualmente por qualquer pessoa em qualquer circunstância. É uma obra clássica que contém verdades válidas para qualquer um que deseje seguir um caminho espiritual.


Autor: Padmasambava
Número de páginas: 264
Editora: Makara

quinta-feira, 25 de julho de 2013

A Partida para a Índia

A Partida para a Índia

O mestre Padmakara [Padmasambhava] voltou sua atenção para os rakshasas que viviam em Lankapuri, a Terra dos Rakshasas, que é com um cabo de machado no continente de Jambu e que está próximo do país de Uddiyana. Ele viu que os rakshasas iriam invadir e destruir a Índia, o Nepal, o Tibet e assim por diante, destruindo a raça humana. O mestre Padma viu a necessidade de se defender contra os rakshasas a fim de conceder o presente do não-medo às pessoas do continente de Jambu. Ele decidiu deixar o glorioso Samye e ir ao topo da Gloriosa Montanha Cor-de-cobre.

Nesta hora, o príncipe Mutig Tsenpo e outros reis tibetanos, os ministros, os praticantes ordenados masculinos e femininos, os meditadores, yogis, curadores, copiadores e recitadores, governantes, mulheres, benfeitores masculinos e femininos — resumindo, todo o povo do Tibet — imploraram que ele permanecesse, mas ele não consentiu. Ao invés disso, ele cantou esta canção de aborrecimento com o Tibet.

Namo Ratna Guru

Senhor Amitabha e Avalokiteshvara,
Sua compaixão abarca todos os seres.
Concedam suas bênçãos para que eu possa ser o seu discípulo
E para que eu possa esvaziar o samsara.

Agora ouçam aqui, rei e súditos tibetanos.
Eu, Padmakara de Uddiyana,
Cheguei no Tibet devido à continuação do karma passado
E realizei a aspiração do rei [Trisong Detsen].

Nesta terra do Tibet, um reino encoberto por densa escuridão,
Fiz o sol do Dharma brilhar
E estabeleci todos os seres tanto na felicidade quanto no bem-estar.
E então o rei do Tibet faleceu.

Agora não devo mais permanecer no Tibet.
Eu e os tibetanos não entramos em acordo!
Eu estou partindo; estou indo para a Índia!

Eu, o rei e ministros tibetanos não entramos em acordo!
Eles não governam o reino de acordo com o Dharma.
Ao invés disso, os ministros controlam o rei do Dharma.
Estou cansado dos reis que se engajam em maus atos.
Eu estou partindo; estou indo para a Índia!

Eu e os monges tibetanos não entramos em acordo!
Eles não mantém a disciplina pura,
Mas sim desfrutam, em segredo, de carne, vinho e mulheres.
Estou cansado de pessoas hipócritas.
Eu estou partindo; estou indo para a Índia!

Eu e os professores tibetanos não entramos em acordo!
Eles não explicam corretamente as palavras do Buddha e os tratados,
Mas sim enganam as pessoas com ensinamentos distorcidos.
Eu estou partindo; estou indo para a Índia!

Eu e os meditadores tibetanos não entramos em acordo!
Eles não misturam o estado de meditação com a pós-meditação,
Mas sim fazem do mero entendimento intelectual a sua experiência e realização.
Estou cansado dos praticantes que se fixam sobre a calma inerte.
Eu estou partindo; estou indo para a Índia!

Eu e os tantrikas tibetanos não entramos em acordo!
Eles não mantém puros os compromissos sagrados.
Ao invés disso, eles deixam tanto o Mahayana quanto o Mantra Secreto se desviarem no xamanismo.
Estou cansado dos violadores de samaya.
Eu estou partindo; estou indo para a Índia!

Eu e os yogis tibetanos não entramos em acordo!
Eles não possuem o significado da Visão e da Meditação em sua prática do Dharma,
Mas sim enganam a si mesmos com chavões orgulhosos.
Estou cansado de pessoas jactantes.
Eu estou partindo; estou indo para a Índia!

Eu e os governantes tibetanos não entram em acordo!
Eles não misturam os afazeres sociais com o Dharma divino,
Mas sim gastam os ensinamentos e o reino com más intenções.
Estou cansado de pessoas de mente ruim com intenções negativas.
Eu estou partindo; estou indo para a Índia!

Eu e os benfeitores tibetanos não entramos em acordo!
Eles não praticam a generosidade livre do prejuízo
Mas sempre criam causas para o renascimento entre os fantasmas famintos.
Estou cansado das pessoas enganadoras e mesquinhas.
Eu estou partindo; estou indo para a Índia!

As mulheres tibetanas e eu não entramos em acordo!
Elas não têm fé e compaixão em seu coração,
Mas sim seguem os charlatões com fé oca.
Estou cansados das mulheres sem fé e luxuriosas.
Eu estou partindo; estou indo para a Índia!

Discípulos tibetanos, permaneçam em paz.
Eu estou partindo; estou indo para a terra dos rakshasas.
Rogo que nós possamos nos encontrar novamente no futuro.

Então todos os discípulos tibetanos se sentiram envergonhados de si mesmos. Com corações doloridos, com seus olhos cheios de lágrimas e atormentados pelo desespero profundo, eles fizeram prostrações completas. Eles colocaram os pés de Padmakara sobre o topo de suas cabeças, agarraram seu robe e rogaram, Ouça, grande mestre! Se você partir para a Índia, não teremos como esclarecer nossas concepções errôneas externas e internas! Anteriormente, quando o rei Trisong Detsen estava vivo, sua bondade era imensa. Agora, por favor continue a cuidar do povo do Tibet com sua compaixão. De todos os modos, por favor fique!

Em resposta ao pedido deles, o Mestre Padma disse: Durante o reino do rei [Trisong Detsen], fiz o Buddhadharma se espalhar e florescer. Vocês, meus seguidores, o rei [atual] e os súditos, devem manter minha tradição exatamente com ela é, como benfeitores e objetos de respeito. Já que estou indo para a Índia, não haverá qualquer um para esclarecer suas concepções errôneas externas e internas. Mas a menos que os rakshasas sejam banidos, eles inundarão sua terra, Lankapuri, e comerão todos os humanos do continente de Jambu. Chegou a hora de eu partir para subjugá-los, então preciso partir.

(Advice from the lotus born: a collection of Padmasambhava's advice to the dakini Yeshe Tsogyal and other close disciples. Introdução de S.E. Tulku Urgyen Rinpoche, tradução de Erik Pema Kunzang e edição de Marcia Binder Schmidt. Kathmandu: Rangjung Yeshe, 1994. Pág. 149-151.)

Instruções para Yeshe Tsogyal

Instruções para Yeshe Tsogyal

Depois de me dar predições visionárias, ele [Padmasambhava] se preparou para partir nos raios do sol, mas me curvando a ele, eu [Yeshe Tsogyal] o ofereci este lamento urgente:
Alas! Alas! Senhor de Uddiyana,
Aqui um momento, indo em seguida —
Certamente esta é a impermanência do nascimento e da morte.
Como posso prender o processo do nascer e do morrer?

Alas! Alas! Senhor de Uddiyana,
Estivemos juntos por tanto tempo
E agora, em um lampejo, estamos separados —
Isto certamente é o que significa o encontrar e o partir.
Como posso permanecer sempre com você?

Alas! Alas! Senhor de Uddiyana,
No passado, você permeou todo o Tibet,
Mas agora, apenas a marca de sua presença permanece —
Certamente isto é o que é chamado de impermanência.
Como posso prender os ventos do karma?

Alas! Alas! Senhor de Uddiyana,
No passado, seu conselho reforçou o Tibet,
Mas agora temos apenas a lenda para ouvir —
Certamente isto é o que é chamado de mudança e vir-a-ser.
Como posso obter a convicção inabalável?

Alas! Alas! Senhor de Uddiyana,
Até este momento, fui sua companheira constante,
Mas agora o mestre está desaparecendo no céu,
Deixando esta mulher na cama do karma ruim.
Quem me dará a iniciação e a bênção?

Alas! Alas! Senhor de Uddiyana,
Suas palavras foram cheias de instruções profundas,
Mas agora, imortal, você se dissolve no espaço,
Deixando para trás esta mulher atada ao corpo.
A quem posso pedir para dissipar obstáculos e me inspirar?

Alas! Alas! Senhor de Uddiyana,
Por favor me conceda três palavras simples de conselho.
Olhe sempre para mim com compaixão,
Por favor se lembre do Tibet em suas preces que realizam desejos.
Então joguei treze porções de pó de ouro sobre o corpo do mestre e, enquanto eu estava lamentando em aflição, o mestre, cavalgando os raios do sol, falou para mim a um palmo acima do solo, respondendo às minhas perguntas:
Ouça, ó filha, oceano de talento,
Padmasambhava está partindo para ajudar e converter os demônios selvagens.
Este ato hábil dos três modos do Buddha totalmente perfeito
Não podem ser comparados aos estouro das bolhas humanas.
Se você estiver com medo do nascimento e da morte, assimile o ensinamento do Buddha,
E quando você controlar seus fluxos de energia e os processos de criação e realização,
Você prenderá o processo do nascimento e morte da maneira mais superior.

Ouça, ó virtuosíssima, consorte fiel,
Padmasambhava está partindo para o bem de todos os seres.
A compaixão que tudo abraça e que não discrimina
Não pode ser comparada ao véu de delusão da humanidade.
Para estar comigo sempre, pratique o Guru Yoga
E as aparências idealizadas surgirão como o lama;
Não há melhor maneira de evitar o encontrar e o partir.

Ouça, ó senhora atraente e cativante,
Padmasambhava está partindo para a conversão abnegada dos outros.
Este ser supremo e imaculado, em quem a matéria se dissolveu,
Não pode ser comparada aos seres humanos dirigidos pelo karma ruim.
Preenchi o Tibet com discípulos e siddhas;
Medite sobre o mahamudra para obter o insight na impermanência
E o mundo fenomenal, samsara e nirvana, estará livre assim como ele é;
Não há melhor maneira para prender o vento do karma.

Ouça, ó senhora fiel, eternamente jovial,
Padmasambhava está indo ensinar nos reinos dos demônios selvagens.
Este supremo corpo-vajra, imune à mudança,
Não pode ser comparado ao ser humano golpeado pela doença.
Preenchi o Tibet, acima e abaixo, com o ensinamento do Buddha,
E se você o louvar e meditar, o ensinamento não será perdido;
O estudo, a contemplação e a meditação sustentam a doutrina do Buddha.
O bem para si e para os outros é espontaneamente realizado;
Não há maneira mais profunda de evitar a mudança e a decadência.

Ouça, ó fiel garota de Kharchen,
Padmasambhava está partindo para os campos da luz de lótus.
Inspirado pela aspiração dos sugatas do passado, presente e futuro,
Não posso ser comparado aos seres humanos perseguidos pelo senhor da morte.
Você, mulher, após atingir o siddhi, possui um "super-corpo";
Então, peça à sua mente superior pela bênção e iniciação:
Não há outro regente superior de Padmasambhava [além desta mente superior].

Ouça, ó Yeshe Tsogyalma,
Padmasambhava está partindo para o lugar do êxtase puro.
Esta divindade imortal, permanecendo em um corpo de vacuidade,
Não pode ser comparada aos seres humanos com corpo e mente divididos.
Tsogyal foi liberada pelos profundos preceitos secretos;
Medite sobre a grande perfeição para extinguir a corporealidade
E, através da absorção meditativa e das preces, dissipe os obstáculos e ganhe inspiração;
Não há melhor maneira de remover obstáculos à compaixão do lama.

Ouça, ó realizada Brilhante Luz Azul,
Dei a você muitos conselhos e instruções no passado,
Todos os quais comprimidos nesta injunção final —
Pratique o Guru Yoga.
Um palmo acima de sua cabeça, sobre um lótus e lua,
Em uma expansão de luz de arco-íris,
Senta-se Padmasambhava, o lama de cada um,
Com um rosto e duas mãos, segurando um vajra e um crânio,
Vestindo uma túnica, um colete, uma camisa e um xale,
Um xale externo e um manto solto,
Indicando sua completude perfeita dos seis veículos da prática,
Adornado com um chapéu, pena de abutre e brincos,
Em postura de lótus, irradiando luz,
Dotado com as oitenta marcas e sinais ideais,
No meio de dakinis vislumbrantes de luz quíntupla de arco-íris,
Brilhantes, incandescentes, claras com a luz da mente.
Quando esta visão estiver distinta, tome a iniciação e permaneça em absorção;
Se a visão não estiver clara, medite com diligência.
Então, conte o guru siddhi mantra essencial e quintessencial,
E finalmente, integrando o lama com as suas três portas,
Compartilhe o mérito e rogue para atingir a natureza do próprio lama,
E se banhe na esfera semente do potencial puro da grande perfeição.

Não há nada melhor do que isso, Tsogyalma,
E não há aumento ou diminuição de minha compaixão;
É impossível quebrar meu feixe de compaixão brilhando sobre o Tibet;
Estou sempre presente diante de meus filhos que rogam a mim;
Nunca estou separado dos fiéis.
Para as pessoas com conceitos, eu estou velado, apesar de fisicamente presente;
A compaixão contínua reforça meus filhos com a visão clara.
Assim, no futuro, no décimo da lua,
Padmasambhava virá cavalgando no senhor do dia,
Em formas pacíficas, enriquecedoras, dominadoras e destrutivas,
Durante os quatro quartos sucessivos do dia,
Para dar o siddhi correspondente aos meus filhos espirituais.
Do mesmo modo, aparecerei no décimo dia da lua minguante
Para realizar, em particular, todos os atos dominadores e destrutivos;
No décimo quinto dia da lua, cavalgando os raios da lua,
Moverei as profundezas do samsara com minha prece compassiva,
Esvaziando os reinos inferiores sem exceção,
Trabalhando perfeitamente com poder pelo bem dos outros.
No oitavo da lua, após a queda da noite e antes do amanhecer,
No pôr do sol e no nascer do sol, cavalgando meu sábio cavalo de batalha,
Viajando através dos lugares de poder do mundo,
Concederei vários siddhis:
Na terra das demônias viciosas, girarei a roda do ensinamento;
Para todos os seres das vinte e umas ilhas bárbaras
E das trinta terras mais selvagens,
Para pacificar, enriquecer, dominar ou destruir,
Emanando como fogo, vento ou água,
Como céu, arco-íris, terremoto ou trovão,
Despacharei um milhão de emanações para guiá-los para a felicidade;
Não haverá interrupção ao meu trabalho pelos seres.

Você, mulher, a partir daqui, viverá mais do que cem anos
Para atingir a felicidade para todos os seres do Tibet.
Após cem anos mais um, você poderá vir para Ngayab Ling
E, inseparável de Padmasambhava, protegerá seus discípulos.
"Detentora do Conhecimento Irradiando Luz Azul" será o seu nome
E para sempre o seu corpo, fala e mente serão unos comigo.
Tendo preso o processo de nascimento e morte, com os ventos do karma suprimidos,
Você projetará emanações para o bem dos seres futuros.
Na terra do Tibet, suas emanações continuarão para sempre,
Sem fadiga ou arrependimento, trabalhando belo bem-estar dos seres.
Assim seja composta, Tsogyalma!
Você e eu nunca nos separaremos.
Mas no plano relativo, adeus!
E através de minha prece compassiva, possa o Tibet ser feliz.

(Dowman, Keith. Sky dancer: the secret life and songs of the Lady Yeshe Tsogyel.
Ilustrado por Eva van Dam. Ithaca: Snow Lion, 1996. Pág. 126-131.)

Guru Padmasambhava

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